No galinheiro, estava reunido um grupo de galinhas, a maioria era mãe exemplar e experiente, e elas estavam sentadas sobre os ovos à espera dos seus filhotes. Orgulhosas da maternidade, elas contavam com detalhes os prazeres e desconfortos da gestação, as travessuras dos pequenos (hoje não tão pequenos) para as mais jovens e mães de primeira viagem. Conversavam animadamente até o momento em que uma galinha disse que não botaria ovo nenhum. Todas olharam para ela e estranharam tal atitude, afinal o destino natural delas era ser esposa e mãe.
Como ela poderia contrariar sua “natureza”? Por que motivos ela estaria abnegando da maternidade, uma dádiva divina? Por que estaria fugindo de sua essência feminina ao se negar ser mãe e não querer se dedicar aos filhos? Não estaria ela sendo egoísta ao fazer tal escolha? Não seria apenas medo de assumir responsabilidades? O que faria ela se no futuro percebesse que cometera um erro e fosse tarde demais para consertá-lo?
E diante de tantas perguntas, ela respondeu que não conseguiria ser mãe. Afirmou que nunca sequer se imaginara desempenhando este papel. E que ainda não sabia se um dia iria querer ter filhos. Disse ainda que não abriria mão de sua liberdade e de suas coisas para se dedicar a eles. Ela queria era ser galo e cantar pelo mundo afora. E estava certa de que não se arrependeria mais tarde.
Todas ficaram surpresas e algumas horrorizadas com tal resposta.
Então, restam algumas dúvidas: Ela deverá ser condenada por pensar e agir diferente do esperado pelas expectativas sociais? Ao se abnegar da maternidade, ela terá “fracassado socialmente” e por não desempenhar o papel de mãe, estará indo contra a sua “natureza”? Por isso será discriminada pela sociedade?